sábado, 14 de março de 2015

Insônia

Mais uma noite daquelas. Mas daquelas mesmo. Em que o sono finge chegar, mas quando deito a cabeça no travesseiro vem tudo de novo. Pensamentos e mais pensamentos. Nada de apagar. Apagar mesmo, só o das luzes. Desisto. Fumo um cigarro. Escrevo. Eis eu aqui outra vez. Mais uma história? Talvez. Será boa dessa vez? Só você, leitor, dirá. Penso no que escrever, nada vem. Talvez mais um romance policial. Não. Dessa vez será outro devaneio filosófico no estilo Franz Kafka. O processo, a metamorfose. Qualquer um. O meu é melhor. Sem dúvida. Ele viveu há muito tempo, morreu em 1924. Nunca ouviu falar de internet. Escrevia com papel e caneta. A minha produtividade é muito maior. Minha consciência, mais desenvolvida. A gama de impressões que nosso ser é capaz de absorver nos tempos do século XXI é incomparavelmente maior do que em meados de 1900. Ele nunca bebeu um energético para acordar, nem tomou rivotril para dormir. A psicanálise ainda era nascente. Hoje temos muitas opções para expandir a consciência. Inclusive para potencializá-la.

Em minha modesta opinião, a vida do século XXI é a melhor de todos os tempos. Temos acesso a informação em tempo real. Temos acesso a serviços de saúde inimagináveis. Temos tecnologia e higiene. Quem de nós trocaria a vida de hoje pelo remoto século XV? Pragas, fome e desastres sem um Estado poderoso para intervir e corrigir os problemas ou regular a economia. A globalização nos permite voar de um continente a outro em menos de 24h. Pega-se um trem-bala em Londres e em duas horas estamos em Paris. Um avião de Lisboa e estamos em Berlim. Quem trocaria essa realidade por uma viagem a cavalo de 12h para ir de Porto Alegre a Imbé? Não tentem me enganar. Vocês amam o século XXI. Eu também. Um clique e pronto, lá está a página daquele site de entretenimento ou de rede social. Basta ligar o computador, a qualquer hora do dia ou da noite, para conversar com algum amigo perdido pelo mundo. Imagine você mandar um carta para um amigo ou para aquela pretendente e receber a resposta duas semanas depois. Ninguém trocaria.

Sem falar na TV a cabo. Dezenas de canais, 24h por dia. Um filme, uma entrevista, um jogo de futebol. Tudo ao alcance do controle remoto. Ou será que aquele circo itinerante era mais interessante? Duvido. Verdadeiramente, houveram bons espetáculos em séculos passados, mas os de hoje são infinitamente melhores. Se eram bons, era porque não havia outra opção. Então, entre achar A melhor do que A, é claro que A é o melhor. O problema é que hoje temos o alfabeto inteiro, isso tem levado muitos ao psicanalista. Há, há, há. Brincadeira. Eu também gosto do psicanalista. De vez em quando ele tem algo de útil para conversar. Sabe, a psicanálise é uma experiência bem interessante. Pagar caro para falar sobre futebol com um cara que eu não estou nem aí. Verdade, ou vai dizer que você já convidou o seu psicanalista para uma festa de natal? Eles só servem para isso mesmo, ouvir o que ninguém quer ouvir. Ou o que você não teria coragem para falar com ninguém. É por isso que eles cobram caro. Senão era de graça mesmo. Como uma conversa de bar. Mas tudo bem, eles tem um vasto conhecimento científico nas costas. São pessoas que podem realmente te fazer endireitar.

Bem, esse parece ser apenas o primeiro texto da noite, o sono parece ter tirado férias mesmo. Então vamos lá, porque lutar uma batalha perdida. Talvez um café me faça dormir. Mesmo. Ainda não decifrei os enigmas do meu ser. Meu metabolismo parece diferente. Café nunca me tirou o sono. Chego a pensar que me faz dormir. Talvez o efeito relaxante de tomar uma xícara de café. Não sei. O ritual, sabe. Aquilo relaxa mesmo. Ao menos para mim. É um raro prazer. Apitou! O micro-ondas. O café deve estar pronto. Boa noite.

Um comentário:

Iporã Possantti disse...

Gostei desse aqui! Também acho que café é um ritual. E que relaxa! (risos)